quinta-feira, 7 de janeiro de 2010






A moça do arame
equilibrando a sombrinha
era de uma beleza instantânea e fulgurante!
A moça do arame ia deslizando e despindo-se
lentamente
só para judiar.
E eu com os olhos cada vez mais arregalados
até parecem dois pires.
Meu tio dizia:
"Bobo!"
Não sabes
que elas sempre trazem uma roupa de malha por baixo?
(naqueles voluptuosos tempos não havia maiôs nem biquinis...)
Sim!Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos virgens
segredava-me
sempre:
"Quem sabe?..."
Eu tinha oito anos e sabia esperar.
Agora não sei esperar mais nada
Desta nem da outra vida,
No entento
o menino
( que não sei como insiste em não morrer em mim)
ainda e sempre
apesar de tudo
apesar de todas as desesperanças
o menino
às vezes
segredava-me baixinho
"Titio, quem sabe?...."
Ah, meu Deus, essas crianças!


Mário Quinta, Nova Antologia Poética




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