segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Aprendiz

Ela nunca foi muito de beber, até o dia que resolveu entrar na dança. Só tinha 19 e o mundo era muito grande, como diz Nando Reis naquela fofa canção.
Mesmo sabendo que poderia perder o jogo, ela decidiu se arriscar. Foi pisar pela primeira vez em um bar para descobrir que nunca mais gostaria de sair de lá.
Era todo dia assim: saídas mais tardes, esticadas no barzinho após a faculdade, risadas, amigos, álcool, gatos e tudo o que um ambiente desse tipo pode lhe oferecer.
Nunca imaginou que em um lugar como aquele se sentiria sozinha. Tinha a impressão de que sempre teria a sensação de acolhimento.
E assim se passaram muitos meses, sentia a felicidade pura como a água. Não parecia haver nada mais perfeito. Não sentia falta de nada, se arriscava a dizer isso dos seus antigos amigos e até mesmo da sua família.
Até que um dia a rotina bateu em sua porta. E já estava cansada. Todos os dias era a mesma coisa: o mesmo bar, as mesmas pessoas, o mesmo bafo de álcool e os caras que davam mole sempre. Era sempre tudo a mesma coisa.
Foi então que se sentiu sozinha e pior que isso, vazia.
Quanto tempo não lia um livro? Quanto tempo não escrevia? Quanto tempo não via um filme ou lia um jornal? Cadê as suas amigas da escola e de Minas Gerais, onde passava as férias.
Estava encostada na varanda do bar e olhou para o seu próprio copo.
“- O que aconteceu comigo? Quem eu virei?”
A primeira vista não saberia responder, mas lá no fundo sabia quem era. Era uma ex- menina agora mulher que não foi fiel aos seus princípios e cedeu muito fácil a tudo. Ao mundo. Ela teve vergonha do passado, só que fingir ser quem não é negar a sua essência.
Olhou para todas as pessoas no bar. Quem eram eles? O que eles faziam? Eles faziam isso sempre? Não viviam, trabalhavam, não sonhavam?
Meu deus, quando foi a última vez que sonhei?
Meu deus, eu me perdi. Quem é essa que se apossou de mim?
Ela continuou a olhar todos. Ninguém percebia, ninguém notou que estava angustiada. Todos continuavam a beber, uma hora ou outra sua melhor amiga lhe olhava e dizia “– quero mais um copo”.
Era isso, só isso sempre.
Ela olhou para o seu copo de cerveja, sentiu nojo e jogou no chão. Ele quebrou e todos a olharam. Ela foi embora correndo do bar, sem olhar para trás. Seus colegas gritavam seu nome, mas ela mal se preocupou em se virar.
Correu para a casa, se sentou e resolveu ligar para as suas amigas. Descobriu que Martinha tinha se casado e tido um filho, Paula foi para o Caribe e Joana virou freira. Quanto tempo havia se passado? Qual foi a última vez que se viram? Nove meses, isso mesmo. Quanto tempo!
Como elas puderam fazer tudo isso sem me contar. Decidiu ligar para os seus pais, mas caiu na caixa postal, uma gravação informou que eles foram viajar para comemorar os 25 anos de casamento.
Ah meu deus, meus pais fizeram aniversário de casamento e nem sabia!
Se sentiu perdida. As pessoas que tinha, não estavam mais lá. Mas não porque não queriam, mas porque ela não estava lá antes.
As pessoas mudam, os dias passam e há feridas que o tempo faz questão de curar.
Saiu de casa e foi até a casa de Pedro, seu melhor amigo, por quem tinha uma queda.
- Oi, tia Teresa! – falou com a mãe dele.
- Oh, Maísa! Você por aqui! Quanto tempo!
As duas se cumprimentaram e ela tratou de perguntar:
- Cadê o Pedro?
- Ué, você não soube?
- Soube o quê?
- Ele foi embora do Brasil, foi morar na Espanha com a namorada Chilena dele. Ele não te contou?
Sentiu seu mundo cair. A mãe do Pedro precisou lhe segurar. Quanto tempo não falava com ele? Quantas vezes ele ligou pra ela e ela disse que estava ocupada? Quantas vezes saiu do MSN quando ele entrava? Quantas, ah meu deus! Ela se sentou na cadeira mais próxima, bebeu um copo de água com açúcar e Dona Teresa prometeu ligar para o filho.
Só que ela fez a mãe do Pedro prometer que não iria ligar, logo agora que ele estava tão bem, não iria interferir na felicidade dele. A culpa não era dele, era dela.
Fora ela que fingiu ser uma pessoa que sequer existia. Criou uma ilusão, uma bolha que lhe contaminou, lhe tomou conta e agora seria difícil sair.
Elas se despediram e foi embora sozinha. Sem saber para onde as suas pernas lhe levariam. Tentando se encontrar em algum lugar.

5 comentários:

  1. Quantas pessoas se perdem todos os dias... triste. =/


    Post lindo.. criativo'

    Refletindo sobre ele aqui.. me fez pensar!hehe' ADorei!

    bjuu =*

    ahh.. fiquei feliz com o seu comentário no meu blog! Volte sempre!

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  2. Isso acontece bastante, ceder as coisas mais fáceis e se esquecendo de quem éramos.Um perigo.

    ;**

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  3. É isso que acontece quando as pessoas fingem a essência e fingem ser outra pessoa: perdem aqueles mais importantes.

    :*

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  4. gente, que isso, que triste!!!
    vai ter alguma continuação ou foi o fim mesmo??
    vemos isso acontecer com muitos amigos ne...
    bjsss

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  5. É tão fácil se perder , não é mesmo ?
    Uma vez ouvi o seguinte pensamento : "apenas uma gotinha negra na imensidão branca torna tudo cinza". Acho que a frase combina com o texto ; bastou um deslize e toda a vida de Maísa se despedaçou . E o mais engraçado é que ELA foi a última a perceber essa mudança .
    Mas acredito que há uma esperança para aqueles que QUEREM mudar. Da mesma forma que o mundo cedeu facilmente quando Maísa se dispôs a tentar ser quem não era, o mesmo mundo pode fechar aquela porta e abrir uma janela de volta à verdadeira Maísa. Tudo depende do quanto ela quer isso.
    E , oh , quantas Maísas existem nesse "mundão véi sem portêera!" rsrs .
    Adorei o texto !!!
    E muito obrigada pelo seu comentário , também admiro teu gosto musical (: Só perdoe minha demora em responder ...
    Beeijos ♥

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